terça-feira, 8 de agosto de 2017

Violetas de Aleluia


                                                                    Vinícius de Morais do Espírito Santo

Eu dividia o quarto com o meu irmão Lúcio, 7 anos mais velho que eu. Óculos fundo de garrafa, muitos graus de miopia e uma péssima coordenação motora. Ele não tinha nenhuma aptidão para nenhum esporte e era visto como excêntrico e desajustado pelos outros meninos do prédio em que morávamos. Um enorme conjunto de 16 andares com 3 apartamentos por andar e dois blocos divididos por um divertido playground no bairro Luxemburgo, em Belo Horizonte.
Foi fuçando nos cadernos de Lúcio que encontrei “Violetas de Aleluia”, uma compilação de seus poemas impressos em papel ofício que ele mesmo mandara encadernar. Uma linguagem complicada pra mim naquela época. Eu tinha 12 anos, creio. As imagens que ele criava, aquela atmosfera onírica e surreal, James Dean, necrófilo indo “passear” no cemitério.  Ou a interessante “Elegia ao Fliper Pornô”, que  falava de sexo virtual através de máquinas de fliperama.
Tudo aquilo me fascinou, a fauna e a flora urbana que povoavam aqueles poemas. As drogas, a rejeição, a inadequação dos sonhos juvenis ao mundo dos adultos, o spleen, a solidão, a cultura beat, a cultura pop, os andróides e os anjos com que Lúcio sonhava. Que eu me lembre, foi nessa ocasião que eu tive vontade de escrever alguma coisa que fosse minha, que não fosse uma redação de colégio ou uma coisa escrita simplesmente por obrigação.
Desde então passei a freqüentar os cadernos de Lúcio, copiar o seu método de escrita e, confesso, roubava às vezes alguns versos. Fui me familiarizando também com as coisas que ele lia na época: Allen Ginsberg, Laurence Ferligetti, Rimbaud, Jorge Mautner... Por tudo isso, creio que a minha formação como leitor se deve muito ao Lúcio, que é  escritor e estudioso de literatura e ainda hoje me apresenta coisas novas e inusitadas quando nos encontramos.

Enfim, pra mim é inevitável remeter minha iniciação no mundo das letras à influência de meu irmão, pela reverberação afetiva que eu tenho da época em que ainda morávamos juntos e dividíamos o mesmo quarto. Lúcio tinha a mania de ler deitado na cama penteando o cabelo, o que era bastante cômico, pois ficava ali horas a fio fazendo isso, às vezes passava o dia inteiro. Esse seu hábito era bastante conhecido por todos em casa. Nunca entendi o que ele quis dizer com “Violetas de Aleluia”. Nunca me esqueci dessa imagem. Logo, deixo aqui minha homenagem.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fina Prosa Crítica: Uma Carta



Fina Prosa Crítica: O Paulo Lins de Hoje é o Tito Batini de Amanhã?
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Li atentamente, no número de dezembro de 2006 da Revista piauí, o ensaio de Roberto Schwarz a respeito do livro de Gilda Mello e Souza. Reconheço que Schwarz é um grande crítico literário.
            Para comentar um artigo sobre um livro que, por sua vez, trata de outros filmes e livros, fica-se numa situação complicada, afastado das fontes primárias. Meu ponto não é nem se o comentário chegou a ser humilhante de tão bom. O fato que me chamou a atenção foi o comentário sobre Exercícios de Leitura, exercícios esses que diminuem determinados filmes do Cinema Novo, ainda que a intenção não seja essa, explicitamente. Até esse momento do artigo, eu estava gostando, pois não vejo problema que alguém trate de moda sem falar em nada que esteja em moda na atualidade.
            Não concordo que no mesmo artigo fale-se mal de O Desafio e se elogie Terra em Transe. Existem amplas relações de continuidade entre os dois filmes e que aparentemente não foram estabelecidas por Gilda Mello e Souza em 1981.
Vendo ambos os filmes, pode-se notar que o personagem de Paulo Martins de Terra em Transe está intimamente ligado ao Marcelo, o personagem de Vianinha em O Desafio. Um continua o outro, num contexto diferente; no quarto de Marcelo, em O Desafio, aparece um cartaz do filme de Glauber Deus e o Diabo na Terra do Sol. Paulo é Marcelo radicalizado dois anos depois, compreendendo um pouco melhor os acontecimentos que para Marcelo ainda eram incompreensíveis, pois, de dentro da fossa aberta em 1964, Marcelo ainda via tudo escuro. Pode-se dizer que ambos permaneceram ainda muito ligados ao mundo burguês que verbalmente ambicionam destruir. Paulo Martins sofre e agoniza, atormentado pela figura de Porfírio Diaz, o traiçoeiro líder político que acaba de dar o golpe em Eldorado, e não pelo fraco Vieira, incapaz de decisões nos momentos oportunos, e destinado, portanto, à lata de lixo da História. Isso num momento em que o presidente Lula, um misto do operário Jerônimo e do pragmático Vieira, proclama a quatro ventos estar aguardando o julgamento da História.
            Mas deixemos a política de hoje em dia e voltemos para a fina prosa crítica: Gilda trabalha com a premissa de que em Terra em Transe não há esse mesmo dilaceramento que em O Desafio, por achá-lo melhor resolvido ao descrever o episódio do comício com uma visão grotesca e contraditória do povo. Ela encontra para essas imagens nobres tradições pictóricas, enquanto em O Desafio o diálogo seria excessivo, e o conflito, uma falha ruim e inconsciente. No entanto, o conflito entre o que é dito e o que é mostrado é tanto consciente quanto tematizado, em ambos os filmes. Ela deixa de lado, em Terra em Transe, os bailes no palácio de Diaz, quando, na sala com Danuza e o Peri da ópera, entre taças quebradas e síncopes de jazz, Paulo Martins velejava os chamados mares do não.
            Saraceni respondeu a várias dessas críticas a seu filme em Por Dentro do Cinema Novo, Minha Viagem, uma autobiografia datada de 1993. Por exemplo: “Pode-se objetar, talvez, que a dialogação é excessiva, e que nem sempre as falas são válidas como falas cinematográficas; mas, apesar disso, não há no filme uma só frase que não tenha validade como idéia, como captação de um momento histórico recente, como comportamento das personagens em relação a seu meio e a sua classe” (p.198). “Aos que acusam o filme de superfalado, poderíamos retrucar acusando-o, também, de supersilencioso. Se o filme tem, praticamente, dois personagens e seu tema é o desentendimento entre um homem e uma mulher, em função de uma circunstância política, o diálogo é a expressão necessária desse desentendimento (...). A conversa é descontínua e o silêncio, além de imantar impressionisticamente a ambiência, do conteúdo das falas, funciona ao mesmo tempo como elemento de contraste e de ênfase dos diálogos” (p. 207). Não se pode dizer também que exista dubiedade político-ideológica nesse filme: dentro dele há um close de Maria Betânia falando das estatísticas dos nordestinos que fugiam da fome e da seca para o Sul do país, no espetáculo Opinião; no final, o personagem recusa relacionar-se com o escritor cínico e sua mulher, e o filme se encerra ao som de uma letra de Gianfrancesco Guarnieri em parceria com Bertold Brecht, musicada por Edu Lobo, na peça Arena Conta Zumbi. Que não seja reeditada uma crítica a O Desafio sem levar em conta essas respostas, portanto.
Para encerrar esse comentário a respeito de Fina Prosa Crítica falando sobre algo em moda na atualidade, lembro o último grande feito de Roberto Schwarz: ele indicou para a publicação, pela Companhia das Letras, o romance Cidade de Deus, do ex-favelado Paulo Lins, um romance violento, com pouco humor e longo; tratava-se, no mais, de um romancista iniciante, embora já acadêmico experiente na área de Ciências Sociais. A indicação foi claramente decisiva para sua publicação.
            O romance mostrou-se um grande sucesso, vindo a tornar-se um filme igualmente bem sucedido em termos de público e crítica, o que é raro no país; ainda chegou a concorrer como melhor filme estrangeiro em Hollywood, tendo perdido a competição, mas ganhou uma boa possibilidade de divulgação em termos mundiais. Creio que dificilmente algum outro crítico brasileiro alcançou tão alto triunfo, tão grandes conseqüências em uma aposta alta como essa.
            Faço, então, uma associação lembrando um “caso” literário: Antonio Candido, mestre de Schwarz, também indicou pelo menos um autor bem sucedido no passado: Tito Batini. Tratava-se do livro de alguém de origem humilde, um “ferroviário que queria escrever”, como dele disse Oswald. Oswald de Andrade desentendeu-se com Batini, julgando sua obra ainda imatura, e Candido acusou Oswald de criticar sem analisar. No entanto, seu tempo o contrariou: Batini ganhou inúmeras críticas favoráveis, foi traduzido e incensado, como registrou Oswald em Ponta de Lança: “O seu volume foi apadrinhado pelo guerrilheiro Rubem Braga, premiado por Diretrizes, traduzido pelo sr. Putnam...Se houvesse prêmio Nobel, ele não escapava!”
A propósito do tipo de iniciativa crítica que Candido fez no passado, e que Schwarz realiza hoje em dia, deixo a pergunta: quem lê, hoje, Tito Batini? Quem sabe quem foi ele? Por que Candido e Schwarz, que são vivos e ainda produzem, não escrevem ensaios sobre essa figura? Será esse o destino de Paulo Lins?
Bom, por enquanto não acho importante alongar mais essa carta. Entre a esperança e a ânsia, aguardarei que estejamos comentando avidamente Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, lá pelo ano de 2045, assim como estamos discutindo O Desafio quarenta e dois anos depois de seu lançamento.

domingo, 25 de junho de 2017

O Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão


         O convite do primo Jerônimo foi quase uma intimação:
--Tu vai passar uma semana comigo na Cruz das Dores. Tem juriti, capivara, raposa e tamanduá bandeira, quando dava sopa dava até pena.
         Jerônimo queria consolar-me com a carabina. A pontaria. O disparo certeiro. Ou a cartucheira esparramando chumbo em cima das codornas. Os perdigueiros na amarração. O cheiro do capim molambo. A reiva orvalhada. A lama. Os mosquitos. Carrapatos. Esterco de gado. O curral exalando a farelo de cana. O Quinca, o vaqueiro velho, contador de histórias. Eu não precisava de melhores argumentos. Aqui é ar condicionado. Poltrona reclinável. Gás carbônico. Papelório. Tapetes, Elevador, Reuniões, Poluição. Horários. Computador eletrônico. Gravata. E coisas piores. Acusam meu filho, meu herdeiro, de furto e corrupção. Estou curtindo a desonra. Sinto fortes dores na nuca, queimação no estômago, taquicardia, só de remover estas misérias. Na rua ando cabisbaixo, uma carga de chumbo. Um molambo de pernas. Arrasto amargamente a maledicência, os risos mal disfarçados e a ironia dos amigos.
         --Vou. Mas quero sair daqui a cavalo, bem montado, de bota, panamá e espora.
         Jerônimo redargüiu “que o trato estava feito”. “Que se o amigo ia montado, ele próprio não se furtava ao dever de ir também montado”. Dois dias depois, mal nascia o sol os dois cavaleiros cortavam a cidade de ponta a ponta. Os transeuntes paravam e julgavam-nos dementes. Bang-bang. Gary e Roy Rodgers. Um deles gritou:
--Que boniteza, hein, seu Guilherme!
--Não é boniteza, não, caramba, é precisão!
II

Meu avó, ao falecer recomendou que a bengala dele não podia ser vendida, nem doada, nem emprestada, nem colocada atrás da porta. Era uma linda bengala de marfim, marchetada com pedras semi-preciosas. No cabo havia inscrições misteriosas. Mas ninguém ligava importância a tal relíquia. Depois da morte do velho, ela andava jogada nos cantos, nas mãos dos meninos e até no lixo já estivera,

III

O cavalo trotava. Quando o pelo começou a se molhar debaixo dos arreios, avistamos, na encosta da montanha, um casarão. Era a fazenda. Jerônimo esticou o dedo e informou:
--Ei-la. Foi construída ainda no século XVII.
Depois mostrou-me antigas dragas, bateias e montes de cascalho, abrigos de pedra semi-destruídos. Apontando para o riacho borbulhante:

--Já saiu muito diamante desses entulhos...

Subimos pela vereda que serpenteava, em volteios alucinantes e perambeiras. A passarada punha-se em pânico. Canários. Curiós. Sabiás. Pica-paus. Vencíamos sem dificuldade a erva cidreira que orlava o caminho. Um homem veio correndo. Reconheci seu porte ereto, o nariz adunco avermelhado. Chapéu de couro quebrado na testa. Dispôs-se a abrir-nos a porteira:

De meu avô tivesse razão de ser. Recusava-me a crer nos poderes sobrenaturais da bengala. Por isso, vi quando a empregada colocou a bengala atrás da porta. Não a repreendi. Afinal, Teresa estava bem intencionada. Ela transgredia um preceito de meu avô, mas era por precisão e não por boniteza.
--Deixa que eu mesmo abro, Quinca!
--Só por boniteza, seu Guilherme?
--Não. Por precisão, meu velho!

IV

Minha nova serviçal, a Teresa, tinha mania de ordem e limpeza. Arranjou um lugar para tudo. A máquina de escrever. Os sapatos. Os vidros de remédio. Até o gato se acomodou num canto determinado. Vi quando Teresa colocou a bengala atrás da porta. Eu não queria acreditar que a recomendação.
         Assim que apeei, pedi ao Quinca para contar um caso dos bons, um caso qualquer, mas de boa intriga e bom desfecho.
--Assim, de supetão não tem jeito não, uai. O caso vai saindo é no meio da conversa. Desfila que nem novelo. Palavra puxa palavra.
         Com uma das mãos no montante da porteira, Quinca quebrou o chapéu de couro. Depois refestelou-se no mourão da cerca e começou a contar.
--Essa porteira, para servir de exemplo, vosmecê acha que esta porteira cerca marruco? Perguntou o contador.
--Cerca sim, uai.
--Vosmecê acha que esta porteira cerca um cardume de elefante?
--Cerca sim, uai, isso é pau-ferro no cerne, um esteio grosso desse jeito cerca até o diabo.
--Pois é adonde eu queria chegar. Isso aí não cercou o alazão do Coronel Pereira não. O Coronel passou por aqui sem abrir a porteira. Ninguém sabe se foi por baixo, se foi no meio ou se foi por riba. Eu vi e tem mais gente que viu.
O Coronel Pereira era um homem valente. Que já experimentara a vida em tudo quanto é circunstância. Ponta de faca. Duelo. Espingarda. Sertão. Febre. Cobra. Mulher casada. Tocaia. Veneno. Medo era coisa que nunca sentira, nem sabia de que jeito era, se fazia cócegas ou se doía.
--Nesse mundo não tem nada para me fazer frente. E quem vai me provar muito bem provado que fora do mundo tem essas asneiras que o vigário fica ensinando? Será que o Padre Nazário já viu o tal de São Tomé? Eu cá queria topar uma parada era com o diabo em pessoa.
         A mulher, muito beata, tremia e benzia-se, pedindo perdão pelas blasfêmias do marido.
--Sossega Felisbina. Tu tá com maleita, peste?
Coronel Pereira tangia mil cabeças de gado, duas mil e até mais, por este sertão sem eira nem beira. E ia só com três peões. Saía de Cuiabá, passava em Tabatinga e varava o Sertão da Farinha Podre, sem nenhuma rês de baixa, sem nenhum arranhão.
--Quero topar paradas mesmo é com esse tal de diabo. Vou provar que esse bicho, se existe, não dá pro começo.

VII

O Coronel tinha uma bengala. Aqui ninguém nunca viu, mas dizem que era uma linda bengala de marfim, marchetada com pedras precisosas. No cabo havia inscrições misteriosas. Quando saía, recomendava muito a Filisbina:

--Tá vendo essa bengala aqui, mulher?
--Tô sim, sinhô!
--Pois é. Não vende, não dá, não empresta e nem coloca ela atrás da porta.
--Sim sinhô, meu sinhô!
Só então montava e saía.

VIII

Fazia já uma semana que o Coronel conduzia mil e quinhentas cabeças para Cuiabá. Assim que atravessou o Paranaíba morreu fulminado um peão. Caiu do cavalo gemendo e fedendo chifre queimado. Depois sumiu o peão e o cavalo. O Coronel prometeu:

--Se a maldição desse pobre aparece, eu toro no tiro. Se for macho, mesmo, que apareça!

Seguiu viagem. Duas léguas adiante arranchou. A noite ia alta, quando um fogaréu lambeu os dois peões de resto. O Coronel ainda achou natural. Carregou a carabina e esperou, todavia, desesperou e dormiu.

IX

No raiar do dia, continuou a marcha sozinho, sem espanto. “E só esta peste aparecer que toro no tiro”. Foi ai que ele viu que estava no meio de um brejo e a boiada desaparecia no barro. Mourejou três dias em seguida. E conseguiu colocar a boiada em terra firme sem perder uma novilha sequer. Mas, quando ele próprio foi atravessar o lodaçal, o alazão começou a afundar. E quanto mais mexia, mais o pangaré chafurdava. O coronel viu então um preto, forte e rijo, fumando sossegadamente no meio da boiada. Berrou, pois, o Pereira:

--Ô negro diabo, vem me ajudar aqui!!!

Mal pronunciou o nome diabo, foi trovão, pólvora queimada, enxofre, cobras, labaredas, chifre queimado. O Coronel estava frente a frente com o demo. A carabina negou fogo. Ele então percebeu que só havia uma explicação: a bengala devia estar atrás da porta, e mugiu:

_Filisbina, tira a bengala detrás da porta, peste miserável!

O Pereira olhou e não viu mais ninguém. Entretanto, o alazão estourou que não havia brida, nem freio, nem chibata, nem espora, nem diabo que o fizesse parar. Passou pela porteira de pau-ferro com o Coronel por cima, ninguém sabe como. Um peão viu aquilo, gritou:

--Tá fazendo boniteza, hein, Coronel?
--Boniteza não, cabra. Isso é precisão.
E o cavalo só estacou quando pôs os bofes para fora. Estrompou e morreu.

X

--Escuta, Quinca, você falou em bengala atrás da porta? Será que entendi bem? Você falou que a Felisbina escutou o grito do Coronel, quando ele estava lá na divisa de Goiás?

--É sim, doutor.

Fiquei pensativo e nervoso. Então me veio uma súbita vontade de gritar e, com efeito, gritei:

--Teresa, tira a bengala de trás da porta, peste miserável!

XI

Voltei para a cidade. Dei ao Jerônimo uma desculpa qualquer: “Não estou passando bem”. “Preciso ver uns negócios”. Quando entrei a bengala estava sobre a mesa. Teresa veio chegando:

--Patrão, fiz como o senhor mandou, mas acho que esta bengala não tem nenhuma precisão de ficar em cima da mesa.

--Se não tem precisão, deve ficar por boniteza.

         Na mesma noite os amigos vieram me dizer que meu filho fora julgado inocente. Erro do computador e da contabilidade. Que, como reparo de danos, eu fora promovido a Diretor Presidente.
         Quanto à bengala, ainda fico em dúvida, mas não saio de casa sem recomendar:

--Não venda, não dê, não empreste e nem coloque a bengala atrás da porta. Sapo quando não pula por boniteza, pula por precaução.


Lúcio Emílio do Espírito Santo



Vivas Lembranças

Lúcio Emílio do Espírito Santo

Abriu o porta-jóias, tirou dali uma aliança e levou-a aos lábios, bem perto. Embaçou-a com o hálito e esfregou-a na toalha em que se achava envolvida.
A seu lado, a filha escovava os cabelos muito finos, que rebrilhavam à luz filtrada pela vidraça.
--Anda, Cláudia, não podemos nos atrasar.
Na verdade era ela que atrasava. A filha quase pronta e ela nem se enxugara ainda.
Andava preocupada ultimamente com os objetos que a cercavam, como se nunca os tivera visto, mirava demoradamente as paredes, o teto, os quadros tentando decifrar seu interior. E que tudo agora lhe chamava a atenção. Os objetos pareciam falar.Principalmente os objetos dele. O aparelho de barbear, os óculos, o gato, o toco de cigarro. Ela se surpreendia ouvindo a voz desses seres, que de repente se tornavam alegres palradores. Às vezes, perdia assim horas e horas.
Mexeu numas cartas amareladas. Não queria que Cláudia visse. Por isso quase entrou no guarda-roupas. “Onde está a minha bolsa?” Perguntou de mentira. Só para que a filha não se preocupasse com a sua demora. Fingia procurar alguma coisa, enquanto lia a carta mil vezes lida, o papel já em frangalhos.
            Observava mais a letra. Ligeiramente tombada para a esquerda. Denotava talvez timidez. E ele era tímido. O era assim, tinha um rabinho puxado para cima, desligado da letra seguinte. Como seus olhos amendoados.
            O T maiúsculo era bem trabalhado. Aliás todas as maiúsculas. Lembravam as iniciais de capítulos nos livros antigos.
            Não escrevia na pauta. Engraçado! Como só agora observara isto? Era realmente a milésima leitura. Todas, sim, diferentes, reveladoras. A última, porém, lhe dava a certeza de não haver no mundo homem igual. Achava, então, incrível sua aventura. Uma lufada de felicidade varreu-lhe o espírito. A letra acima da pauta. Era indício não sabia de quê. Era um sinal que a reconfortava muito. Um dia ainda levaria aquelas cartas a um grafólogo. Descobriria muito mais coisas. Uma pontinha de orgulho ela teve. “O que vim fazer aqui mesmo?” –pensou. Ah! Já sei. O vestido estampado.
            Agora ela já estava diante do espelho. Pediu o batom:
            --Mamãe, você não precisa de pintura. É muito mais bonita sem ela. Depois, no vestido estampado estão todas as cores da primavera...
            Ela sorriu, acatando plenamente a sugestão de Cláudia.
            Perfumou a ponta dos dedos. Ele gostava assim. Mãos perfumadas.  Porque depois que ela ia para casa e ficava com o aroma. “Perfume é o que ficava com o aroma. “Perfume é o que fica. Sua presença é enorme. Mais que quando estamos juntos. “—Disse certa vez.
            Conferiu o espelho. De cá. De lá. Os cabelos negros esvoaçantes. O decote. O filete de rímel no azul dos olhos.
            --Estou pronta. Vamos! –avisou ela depositando o pente na bolsa.
            Na rua o sábado fervilhava. Passaram na esquina e deram sinal ao primeiro táxi que surgiu. Estava lotado. Continuaram a olhar fixamente par os carros que iam e vinham. Não pressentiam a aproximação de Genoveva, a vizinha do apartamento, que voltava das compras com os braços abarrotados de embrulhos multicores.
            --Vocês parecem duas irmãs. Dois cromos. Ninguém diz que são mãe e filha.
            Ela agradeceu a bondade da amiga, abaixando-se logo em seguida para apanhar o embrulho que deixara cair Genoveva.
--Olha o táxi, mãe!
            Despediu-se de Genu e entrou no
--Praça do Museu, por favor
            Tinah consciência de sua semelhança com a mãe e ficava feliz com isso. Ela havia sido a sua melhor amiga. Compreendia melhor que ninguém o seu modo de ser.
            Se a solidão em que viviam não lhes deixava marcas nem revolta, o fato só deixava marcas nem revolta, o fato só se devia às habilidades de sua mãe, no bom relacionamento que sempre cultivou. As dores por que passaram, as dificuldades que tiveram, em qualquer outra circunstância, teriam provocado traumas. Entre as duas entretanto, não havia apenas semelhança física. Eram também almas irmãs, como duas gotas d´água.
            O sol de dezembro, mesmo no ocaso, ainda lhes abrasava o coração. Desceram do taxi. Claudia não sabia ainda o que iam fazer. Estranhou um pouco a idéia da mãe, mas a confiança que sempre lhe devotou impediu-a de especular. Deixava-se levar como folha seca.
            Nunca fizera um passeio destes antes. Gostavam muito de cinema, às vezes, teatro, visitas a amigos ou parentes, mais raramente bailes e praça de esportes. Quando viu as levas de crianças brincando sob o olhar distraído das babás, começou a achar beleza naquilo tudo.
            Andavam agora tão devagar que Cláudia se impacientava:
            --Vamos, mamãe. Quero ver o chafariz.
            Era um grande leão, a água jorrava-lhe pela boca. A mãe parecia não querer adentrar profundamente aquele jardim. Talvez não persistisse, a emoção lhe dava tonturas. Perdia-se na contemplação dos canteiros repletos de  boninas, cheio de agapantos ali.
            O meio fio sinuoso levava ao coreto central no alto de uma pequena colina. Era para lá que a mãe levava a filha.
            O sol emitia raios enfraquecidos colorindo o colorido, banhando de vermelho mortiço o roseiral. Aqui e ali, pardais serviam os estertores do dia. Quando chegaram ao coreto, Cláudia lhe deu um puxão no braço.
            --Mamãe, aquela retrato seu e de papai foi aqui, não foi?
            Ela não pretendia chorar. Porque isso significa deixar-se vencer. Podia parecer também fraqueza diante da dor. Durante a viuvez, chorara pouquíssimas vezes. Reprimia sempre a vontade. Olhou em volta. Por um momento julgou que ele surgiria por detrás do coreto, como costumava fazer. Concluiu depois que isto não tinha importância. Nenhuma importância. Reconquistara aquela faculdade de falar com os objetos. E iniciou seu diálogo.
            O sol agonizava. Cláudia sentou-se num banco com dois lugares.
            --Senta aqui, mamãe.
            --Não, Cláudia, ali adiante –murmurou ela, encaminhando-se para perto de um fotógrafo ambulante, que recolhia seu equipamento. Indicou um banco de três lugares. E sentaram-se.
            O fotógrafo voltou-se de repente e ela verificou que ainda era o mesmo de vinte anos atrás. Estava bastante alquebrado. Como olhasse insistentemente no afã de reviver emoções antigas, o velho se aproximou com solicitude, com um brilho misterioso nos olhos:

            --Outro retrato, senhora.

domingo, 14 de maio de 2017

Pretexto para Falar em Belchior


            O trabalho de conclusão de curso (o temido tcc, também cognominado truco, cerveja e cigarro) do professor Eder David, agora publicado e intitulado “Alguns (pré)textos nas canções de Belchior num Brasil Ufanista”, publicado pela editora Giostri, é uma pesquisa sobre a censura política e o contexto da vida do grande músico recentemente falecido.
            Curiosamente, é o primeiro livro sobre Belchior de que o autor tem notícia. A pesquisa relaciona-se com os movimentos dos anos 60 e 70: cultura nacional e popular, tropicália, concretismo, movimento contracultural, poesia marginal. Talentoso poeta e compositor, ambientado com a canção popular nordestina, parte de um grupo que abrangia talentos como Ednardo, autor do Pavão Misterioso, Belchior aproxima-se dos movimentos, toma um ou outro elemento aqui e ali, mas nunca se encaixa totalmente.
Eder focalizou sua pesquisa na censura política dos anos 70, censura essa que parece hoje em dia totalmente absurda. Como seria realmente uma ameaça para o sistema político algumas menções metafóricas numa canção popular? Só uma ditadura muito totalitária, com ambição de controlar o todo da vida social poderia chegar a um ponto como esse. É inacreditável que tenhamos passado por isso há apenas quarenta anos atrás. Eu arriscaria dizer que hoje a MPB vive um outro cerco: a ditadura do mercado, que a coloca isolada em nichos, boicotada e marginalizada, exilada em sua própria terra.
            Igualmente, é impressionante saber que, nos últimos anos, o próprio Belchior morava de favor em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, sobrevivendo de maneira anônima às custas de direitos autorais. Só tinha pousada porque os fãs o protegiam e lhe davam acolhida. Tal fato é incrível, em se tratando de um dos grandes nomes da música popular brasileira contemporânea, autor de clássicos como Como Nossos Pais, imbatível na maravilhosa interpretação de Elis Regina.
           Uma passagem muito interessante é a chamada “linguagem da fresta”, conceito que Gilberto Vasconcellos utiliza para tratar da linguagem metafórica que as canções do período se utilizavam para poder transmitir uma mensagem crítica à ditadura. Um contraste enorme com as canções diretas, quase pornográficas, do funk e do “sertanejo universitário”. Vale a pena lembrar que Gilberto Vasconcellos, atualmente brizolista e folclorista e professor da UFJF, renegou totalmente esse livro sobre música popular onde surgiu esse conceito e jamais o reeditou. Vasconcellos diz não ouvir música popular desde o final dos anos 70 e tem um péssimo conceito de Caetano e Gil, que considera boêmios sem conteúdo. Enfim, o texto de Eder David é muito importante para que possamos lembrar aos jovens das lições desse tempo ao mesmo tempo próximo e distante devido à intensidade das mudanças desde então.

domingo, 23 de abril de 2017

Teorema de Pasolini: Uma Crítica

O filme Teorema de Pasolini inicia-se com uma discussão marxista. A seguir, ela é a discussão que o filme passa a ilustrar e demonstrar. O início do filme mostra um debate público com um dono de uma empresa que decide dar sua empresa aos operários. O que levaria um burguês a isso? O filme busca responder essa pergunta.

A resposta, ao invés de materialista como Marx, é mística. O que podemos supor que o burguês fez foi começar uma experiência em que os operários passaram a ser sócios, ou alguma experiência de autogestão depois que a empresa faliu. O fato é que, para um marxista, o socialismo não começa com um burguês cedendo pacificamente sua empresa aos operários.

A resposta de Pasolini está longe de ser marxista. Ele imagina a intervenção de Deus numa família burguesa, evento que culminaria nesse gesto de caridade do burguês. No filme, Deus é anunciado por um gay saltitante ao ritmo de rock and roll. É o deus-bunde, afinal, era 1968. As respostas para a pergunta materialistas serão rigorosamente não-marxistas.

O filme começa preto e branco e depois fica colorido. E tem muito de cinema mudo. O que desbunda os personagens são Rimbaud e Francis Bacon. O que desbundava as pessoas em 68 eram maconha, LSD, a nova liberdade sexual.

Visto cinquenta anos depois, o que se apresenta como transgressão na época é bastante ingênuo e o filme parece não poder ainda trazer nudez. Trata-se de um tempo em que usar cabelos compridos era ser chamado de homossexual. E havia quem dizia que usar cabelos compridos era comunismo.
O que ressalta é que os caminhos para enfrentar o novo contexto anunciado na pergunta inicial --afinal, o do capitalismo desenvolvido--tem muitas respostas no filme, exceto a militância marxista. Antes do burguês decidir dar a empresa, um filho decide desbundar literalmente. E torna-se artista pós-moderno, faz um quadro azul e o completa mijando sobre ele, dentre outras obras. A arte abstrata, pós-moderna no sentido de abranger formas culturais de origem norte-americana, foi vista como uma possível saída para o jovem artista. Na arte abstrata, sonha em apresentar o seu mundo interior, apresentando então suas aspirações mais secretas e menos burguesas.

A mulher do burguês se entrega ao misticismo radical e passa a fazer milagres e levitar, escapismo místico que o filme autoriza ao invés de criticar. Não por acaso, essa ambiguidade fez com que o filme fosse inicialmente aplaudido por um crítico católico, que posteriormente, devido a pressões, voltou atrás. Mas sem dúvida ali o misticismo como resposta para os desafios do capitalismo desenvolvido é ali apontado como solução. E desde então houve voga do misticismo oriental como uma outra opção de metafísica. O poeta Amiri Baraka fez essa crítica a Allen Ginsberg: o poeta de Uivo teria escolhido uivar para uma outra metafísica, ao contrário de reconhecer que o que existe é matéria em movimento.

No entanto, a única arte que combate a exploração é o realismo socialista. Embora sociedades capitalistas desenvolvidas sejam de população pequeno-burguesa e urbana, ou de estilo de vida e ideologia pequeno-burguesa mesmo sendo proletários --aí o problema --as reflexões marxistas caminham no sentido contrário: o sistema capitalista é concentracionário ao ponto de destruir a pequena burguesia.

Para Pasolini, então, a resposta é que o burguês só daria a fábrica aos operários se ficasse nu, desbundasse, visse que a mulher o está traindo, traísse também deixando de lado o casamento burguês tradicional. O burguês daria a fábrica acaso tocado pelo Deus-bunde.

Para um marxista, as fábricas precisam ser tomadas. Não há que confundir uma grande corporação com a razão, como Pasolini parece fazer. Chamar a Coca-Cola ou a Ford de racional é elogiá-la. Não se deve confundir a razão com a burguesia.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Liberdade para Rafael Lusvarghi!

Rafael Lusvarghi já foi de tudo um pouco.
Já foi PM em SP, já foi professor de inglês.
 Mas  Lusvarghi é soldado.

Lusvarghi esteve nas manifestações de 2013.
Lusvarghi não é PSOL.
Lusvarghi foi lutar pela Nova Rússia.

Lusvarghi, só vive em paz quem aprende a lutar.
Grita, Rafael Lusvarghi!
Lusvarghi está preso em Kiev pelos nazifascistas ucranianos.

Rafael grita, acusado de terrorismo!
 Eu grito:
Liberdade para Rafael Lusvarghi!!!